Você já sentiu que está trabalhando muito, dizendo “sim” para coisas aparentemente boas, e mesmo assim a empresa não avança com a consistência que deveria?
Isso acontece quando a gente confunde movimento com direção.

No dia a dia, o mercado joga na nossa mesa uma coleção infinita de “boas ideias”: novos canais, novas parcerias, novos produtos, novos formatos, novas tendências. Algumas são oportunidades reais. Outras são só brilho. E brilho, quando não é filtrado, vira dispersão.
O ponto central deste texto é simples: uma oportunidade de verdade fortalece seu norte. O oportunismo só ocupa espaço.
Papo Reto (para quem quer objetividade)
Oportunidade é uma possibilidade real de crescimento que está alinhada ao norte estratégico do negócio, respeita recursos e melhora a rota no longo prazo.
Oportunismo é a atração por “pontos brilhantes” que parecem promissores, mas desviam foco, consomem energia e não se conectam ao propósito, à estratégia e às prioridades.
A diferença prática está no alinhamento, no custo de escolha e no impacto sustentado.
A confusão que mais custa caro: “parece bom” não é critério
A maior parte das decisões ruins não começa com uma ideia ruim. Começa com uma ideia “boa”, fora de hora, fora de contexto, fora de estratégia.
E é aí que mora o perigo: oportunismo costuma se fantasiar de oportunidade, principalmente quando o negócio está ansioso por crescer, faturar mais ou “não ficar para trás”.
O que o oportunismo faz, na prática:
- Cria uma fila de iniciativas que não terminam.
- Fragmenta o time.
- Dilui orçamento.
- Aumenta complexidade operacional.
- Mata a repetição, que é onde a consistência nasce.
E tem outro custo mais silencioso: o custo de deixar de fazer o que realmente importava. Na economia, isso tem nome: custo de oportunidade, ou seja, o benefício que você abre mão ao escolher uma coisa e não outra. Encyclopedia Britannica
Em negócios, esse custo raramente aparece na planilha. Ele aparece na reputação que não foi construída, no produto que não foi refinado, no canal que não foi consolidado, na cultura que não amadureceu.
Uma metáfora útil: bússola e radar
Para navegar, você precisa de duas coisas ao mesmo tempo:
- Bússola, para não perder o norte.
- Radar, para perceber o que muda ao redor.
Bússola: o norte que não muda toda semana
A bússola representa o que sustenta o negócio no longo prazo: propósito, posicionamento, tese de valor, objetivo maior. É o instrumento que impede você de “virar outra empresa” a cada trimestre.
Mas existe um risco aqui: viver só de bússola pode endurecer a empresa. Você fica fiel ao plano e cego ao mundo. Você insiste em uma rota que já mudou.
Radar: a leitura do ambiente em tempo real
O radar representa a capacidade de perceber tendências, movimentos de concorrentes, mudanças de comportamento e oportunidades emergentes.
O risco do radar é o mais comum: quando ele vira piloto automático. Você reage a tudo. Toda semana surge um “ponto brilhante”. E a empresa vira uma máquina de começar coisas.
Estratégia madura é o equilíbrio entre bússola e radar.
“A diferença entre pessoas bem-sucedidas e pessoas realmente bem-sucedidas é que as realmente bem-sucedidas dizem não para quase tudo.”– Warren Buffett
O problema de operar com apenas um dos dois
Só bússola: rigidez e atraso
Empresas muito rígidas podem ter clareza, mas perdem timing. Ignoram sinais, subestimam mudanças e apostam na estabilidade como se ela fosse garantida.
Em mercados dinâmicos, rigidez costuma ser confundida com convicção. Convicção é importante. Teimosia estratégica, não.
Só radar: desorientação e dispersão
Empresas que vivem de radar são inquietas, rápidas e quase sempre cansadas. Mudam de direção com frequência. A justificativa é sempre plausível: “o mercado está pedindo”, “agora é a tendência”, “se não fizer, vai ficar para trás”.
O resultado é previsível: nada consolida. E sem consolidação, não existe escala saudável.
Definições práticas: oportunidade e oportunismo
Vamos tirar a discussão do abstrato.
O que é oportunidade
Oportunidade é uma possibilidade real de alcançar resultados positivos, desde que alinhada ao seu norte estratégico e ao seu momento de execução.
Ela conversa com a bússola. Ela fortalece uma prioridade. Ela faz sentido no tempo.
O que é oportunismo
Oportunismo é o brilho passageiro que aparece no radar e parece irresistível, mas não tem relação com o propósito e com as prioridades reais do negócio.
Ele costuma ser sedutor porque oferece recompensa rápida: atenção, sensação de novidade, promessa de crescimento acelerado. Só que, na maioria dos casos, cobra juros em forma de dispersão.
Um teste honesto: a oportunidade melhora a sua rota ou troca sua rota?
Quando aparece uma nova ideia, eu gosto de fazer uma pergunta que corta a névoa:
Isso melhora a rota que eu já escolhi ou me empurra para outra rota?
Se melhora, vale aprofundar.
Se troca, precisa de um nível muito maior de evidência. Porque trocar rota não é “aproveitar oportunidade”. Trocar rota é mudar estratégia.
E estratégia, por definição, envolve escolha e renúncia. Michael Porter coloca a estratégia como algo que depende de escolhas e de diferenciação, não só de fazer bem. Harvard Business Review+1
Uma tabela simples para decidir com menos emoção
| Critério | Oportunidade (sinal saudável) | Oportunismo (sinal de risco) |
|---|---|---|
| Alinhamento | Reforça o posicionamento e o objetivo | Puxa para um tema que não é seu |
| Timing | Cabe no momento operacional | Surge como urgência artificial |
| Recursos | Usa capacidade existente com foco | Exige abrir frentes novas sem base |
| Métrica | Tem indicador claro de sucesso | Depende de “sentir que vai dar” |
| Repetição | Ajuda a consolidar um ativo | Cria mais uma exceção na rotina |
| Custo invisível | Compensa o que você deixa de fazer | Rouba tempo do essencial |
O framework que eu uso: o filtro em 3 camadas
Quando algo “bom” aparece, eu passo por três camadas antes de dizer sim.
Camada 1: Bússola (alinhamento)
- Isso está alinhado ao meu posicionamento?
- Fortalece minha proposta central?
- Aproxima do objetivo do ano?
Se não passa aqui, eu nem discuto execução.
Camada 2: Realidade (capacidade)
- Eu tenho time, caixa e atenção para isso?
- O que precisa sair da lista para isso entrar?
- Qual é o custo de oportunidade real? Encyclopedia Britannica
Se a resposta é “dá para encaixar”, eu desconfio. Quase nada relevante “encaixa” sem escolha.
Camada 3: Impacto (resultado sustentado)
- Isso gera impacto em 90 dias e fortalece algo em 12 meses?
- Isso melhora margem, recorrência, reputação ou retenção?
- Isso vira processo ou vira improviso?
Oportunidade de verdade deixa rastro. Oportunismo deixa ansiedade.
“Não há nada tão inútil quanto fazer com eficiência aquilo que não deveria ser feito.”- Peter Drucker
O ponto mais difícil: dizer não para coisas boas
Existe uma maturidade que muda o jogo: aprender a dizer não para ideias boas, para proteger a ideia certa.
Warren Buffett resume isso de um jeito desconfortavelmente direto: “A diferença entre pessoas bem-sucedidas e pessoas realmente bem-sucedidas é que as realmente bem-sucedidas dizem não para quase tudo.”
E Peter Drucker, com a frieza de quem entende gestão, reforça o mesmo princípio por outro ângulo: “Não há nada tão inútil quanto fazer com eficiência aquilo que não deveria ser feito.”
Se você juntar as duas frases, nasce um critério poderoso:
Eficiência sem direção é só desperdício bem organizado.
Como usar bússola e radar juntos no planejamento estratégico
Aqui está a prática, sem romantização.
1) Defina um norte estratégico simples e verificável
Norte não é um texto bonito. Norte é um conjunto de decisões que orienta o dia a dia.
- Qual é o jogo que eu estou jogando?
- Para quem eu existo e para quem eu não existo?
- Qual métrica define progresso real este ano?
Quanto mais difícil for responder, maior a chance de você confundir brilho com oportunidade.
2) Mantenha o radar ligado, mas não obediente
Radar bom é curadoria, não reação.
Você observa tendências, mas decide com critérios. Você escuta o mercado, mas não vira refém do ruído.
3) Tenha critérios explícitos para reconhecer oportunidade
Se o critério não está escrito, ele vira humor do dia.
Exemplos de critérios práticos:
- Alinhamento com posicionamento.
- Potencial de receita com margem mínima.
- Capacidade de execução sem sacrificar o essencial.
- Prazo para validar e condição de parar.
4) Crie um processo contínuo de avaliação
Oportunidades surgem o tempo todo. A decisão não pode depender de improviso.
Eu recomendo um ritual simples:
- Lista única de iniciativas.
- Pipeline com estágio (ideia, análise, teste, execução, escala, descartado).
- Dono responsável por cada item.
- Data de revisão.
5) Faça reuniões de revisão periódicas
Sem revisão, você acumula entulho estratégico.
Revisão não é reunião longa. É olhar com coragem para três perguntas:
- O que estamos mantendo que já não faz sentido?
- O que está funcionando e precisa de mais foco?
- O que entrou por ansiedade e precisa sair?
6) Tenha uma mesa de conselheiros
Decidir sozinho tem um problema: a gente se convence com facilidade.
Uma “mesa” pode ser informal, mas precisa existir: mentores, pares experientes, conselheiros, pessoas que tenham coragem de te perguntar o que ninguém pergunta.
Não é para terceirizar decisão. É para evitar autoengano.
7) Saiba dizer “não” e deixe isso claro para o time
O time precisa entender não só o que será feito, mas o que será recusado.
Quando “não” vira parte da cultura, o foco deixa de ser um esforço individual e vira uma proteção coletiva.
Aqui, uma frase antiga diz mais do que parece: “Os planos do diligente conduzem à fartura, mas a pressa excessiva leva à pobreza.” (Provérbios 21:5)
Pressa, nesse contexto, é exatamente isso: reagir ao brilho e abandonar o processo.
Exemplos reais do dia a dia (sem glamour)
Exemplo 1: o canal novo
Aparece uma plataforma nova e todo mundo diz que “é lá que está o dinheiro”.
Oportunidade seria: testar com hipótese clara, dentro de um recorte, sem desmontar o canal que já paga a conta.
Oportunismo seria: parar tudo, migrar energia e equipe, e começar do zero por medo de ficar para trás.
Exemplo 2: o produto novo
Você tem um serviço que vende bem, mas alguém pede “uma versão mais barata” ou “uma versão diferente”.
Oportunidade seria: avaliar se isso amplia mercado sem destruir margem e posicionamento.
Oportunismo seria: criar variações para agradar pedidos isolados, até a oferta virar um cardápio confuso.
Exemplo 3: a parceria tentadora
Uma parceria promete alcance imediato.
Oportunidade seria: parceria que reforça reputação, atrai o público certo e tem contrapartidas claras.
Oportunismo seria: parceria que traz volume errado, desalinha preço e compromete a percepção de valor.
Checklist rápido para filtrar em 10 minutos
Se você quiser algo direto para usar com seu time, aqui vai:
- Isso fortalece nosso posicionamento ou muda nossa identidade?
- Qual prioridade sai da lista para isso entrar?
- Qual é a métrica de sucesso e em quanto tempo ela aparece?
- O que precisa ser verdade para isso funcionar?
- Se não funcionar, qual é o critério de parar?
- Isso vira processo ou vira exceção?
- Estamos decidindo por clareza ou por ansiedade?
Se as respostas forem vagas, não é hora de dizer sim.
“Os planos do diligente conduzem à fartura, mas a pressa excessiva leva à pobreza.”
– Rei Salomão (Provérbios 21:5)
FAQ: perguntas que sempre aparecem quando o assunto é foco e decisão
1) Como saber se uma oportunidade está alinhada ao meu norte estratégico?
Ela está alinhada quando reforça seu posicionamento, serve o mesmo público e melhora uma prioridade já escolhida. Se a ideia exige mudar promessa, mudar público ou criar uma operação paralela, o alinhamento provavelmente é fraco. A pergunta decisiva é: isso aprofunda minha estratégia ou me empurra para outra?
2) Oportunismo é sempre ruim?
Nem sempre ele “parece ruim”. O problema é o efeito acumulado. Oportunismo tende a gerar dispersão, complexidade e perda de consistência. Uma decisão oportunista pode até dar resultado pontual, mas geralmente enfraquece o que sustenta crescimento: foco, reputação e execução repetível. O custo aparece mais tarde, quando fica caro voltar ao essencial.
3) Como manter o radar ligado sem virar refém de tendências?
Transforme radar em curadoria. Crie critérios por escrito e um ritual de avaliação com data. Tendência sem critério vira ansiedade. Tendência com hipótese vira experimento. O segredo é separar “captar sinais” de “mudar a rota”. Nem todo sinal pede movimento imediato. Muitos só pedem observação e preparo.
4) Qual é a diferença entre testar e se dispersar?
Testar tem escopo pequeno, hipótese clara, prazo curto e critério de parada. Dispersar é abrir frentes sem dono, sem métrica e sem decisão explícita do que sai da lista. Teste respeita a estratégia e protege o essencial. Dispersão rouba atenção do que já funciona e cria um cemitério de iniciativas pela metade.
5) O que fazer quando o time está empolgado com uma ideia que não faz sentido?
Primeiro, reconheça o valor da energia do time. Depois, leve para o filtro: alinhamento, capacidade e impacto. Se não passar, explique o “não” com o norte em mãos, não com opinião. E registre a decisão. Quando o time entende o critério, a frustração vira maturidade. Foco é cultura, não imposição.
6) Como criar critérios de oportunidade que não sejam genéricos?
Critérios bons têm números, limites e contexto. Exemplo: margem mínima aceitável, esforço máximo em horas, prazo de validação, público alvo específico, canal prioritário e impacto esperado. Critério genérico é “parece bom”. Critério útil é “se não atingir X em Y dias, paramos” ou “se exigir contratar antes de validar, recusamos”.
7) Quando faz sentido mudar a estratégia, e não apenas filtrar oportunidades?
Mudar estratégia faz sentido quando há evidência consistente de que a rota atual não leva ao objetivo. Isso inclui mudança estrutural no mercado, falha de tese, alteração profunda no comportamento do cliente ou nova vantagem competitiva real. Mudar por medo ou por comparação costuma ser oportunismo. Estratégia muda por verdade, não por ruído.
8) Como dizer “não” sem perder boas relações e possibilidades futuras?
Diga não com respeito, clareza e porta aberta. Explique que a decisão protege prioridades e que você prefere fazer pouco com excelência do que muito pela metade. Quando possível, sugira alternativas menores: um teste, um formato piloto, um prazo para reavaliar. Um “não” bem comunicado preserva reputação e evita promessas que viram frustração.
Três livros para aprofundar (e transformar isso em método)
Abaixo estão sugestões diretamente relacionadas a foco, decisão e estratégia. Os links estão no bloco de referências, para você acessar e comprar.
- Good Strategy Bad Strategy (Richard Rumelt): clareza sobre o que é estratégia de verdade e como evitar “planos decorativos”.
- Essentialism (Greg McKeown): disciplina prática para escolher menos e fazer melhor.
- Playing to Win (A.G. Lafley e Roger Martin): framework objetivo para decisões estratégicas e escolhas de posicionamento.
Conclusão: a empresa que cresce com consistência aprende a recusar com elegância
No fim das contas, diferenciar oportunidade de oportunismo é aprender a proteger o que você está construindo.
Oportunidade real não te tira do eixo. Ela te coloca mais profundamente nele.
Oportunismo, quase sempre, é só uma forma sofisticada de ansiedade empresarial.
Se você quiser trazer mais clareza para esse filtro, transformar critério em processo e alinhar seu time em torno de um norte simples, a ORIGEM Consulting pode ajudar. Não com promessas mágicas, mas com método, perguntas certas e estrutura para decidir com mais paz e mais precisão.

